Blog · Família e cuidadores
Como convencer seu pai a se cuidar (sem briga)
Por Duda Camargo, nutricionista CRN-10/7247 · Publicado em · Atualizado em
Você provavelmente já ensaiou esse telefonema. Talvez já tenha feito, mais de uma vez, e terminado com os dois irritados e nada resolvido.
Quem chega até mim nessa situação costuma ser a filha. Ela percebeu o exame alterado, percebeu que o pai não está seguindo nada do que o médico falou, e herdou sem votar o cargo de gerente da saúde da família. É um cargo exaustivo, e ele não vem com autoridade nenhuma.
Por que a abordagem frontal quase sempre falha
Um homem de sessenta e oito anos que convive com diabetes há mais de uma década já ouviu tudo. Já levou bronca do médico, já foi avisado sobre complicações, já sabe o que não deveria comer. Repetir a informação não adiciona nada, e repetir com preocupação na voz adiciona uma coisa que ele não quer de jeito nenhum: a sensação de estar virando um peso para os filhos.
É por isso que vigiar prato, esconder o açúcar e contar quantos pães ele comeu funcionam tão mal. Nenhuma dessas coisas muda comportamento. Todas elas ensinam uma coisa só: que a partir de agora ele vai precisar comer escondido. E aí você perde até a informação que tinha.
Os três papéis, que quase nunca estão claros
A família apoia. A profissional orienta. O paciente decide. Quando esses três papéis se misturam, a filha vira fiscal, o pai vira réu, e a comida vira campo de batalha. Quando eles ficam claros, sobra espaço para todo mundo respirar.
Na prática isso significa que você pode sair do papel de vigia sem abandonar o cuidado. Não é desistir dele. É devolver a ele a decisão que sempre foi dele, e transferir a parte técnica para quem é paga para fazer isso.
O que costuma funcionar melhor no convite
Convide para uma conversa, não para um tratamento. Uma consulta única, sem compromisso de continuidade, é uma porta muito mais fácil de atravessar do que um pacote de três meses. Para esse perfil, eu costumo recomendar exatamente isso: começar pequeno.
Fale do que ele ganha, não do que ele perde. Comer com a família sem ouvir comentário, parar de ser tratado como doente na própria mesa, e continuar comendo a comida da casa dele são argumentos melhores do que qualquer estatística de complicação.
E deixe claro que ele vai na consulta como adulto, não levado. Se puder, pergunte se ele prefere ir sozinho. Muita gente aceita justamente porque a filha não vai estar na sala.
Frases que costumam fechar a porta: "você precisa se cuidar"; "o médico já falou"; "assim você vai acabar mal"; "eu marquei para você". Frases que costumam abrir: "eu queria entender melhor isso com você"; "tem uma nutricionista que trabalha só com diabetes"; "se não gostar, a gente não volta".
Quem está escrevendo isto
Sou Duda Camargo, nutricionista, CRN-10/7247, mestre em Nutrição pela UFSC, com residência multiprofissional em Atenção Básica e Saúde da Família. Atendo diabetes e saúde metabólica, e vivo com diabetes tipo 1 desde os nove anos. Isso significa que eu já estive dos dois lados dessa mesa.
No meu consultório não tem bronca. Não existe paciente indisciplinado, não existe escorregada, e ninguém é tratado como criança por causa da idade.
O que eu não prometo
Não prometo convencer ninguém, e não prometo número de exame. Se ele não quiser, ele não vai, e isso não é falha sua. O que eu posso fazer é receber bem quem chega e não dar nenhum motivo para não voltar.
Se você quiser conversar antes
Você pode falar comigo antes de falar com ele. Me chame, me conte a situação e eu te digo com honestidade se faz sentido, e como eu costumo conduzir a primeira consulta nesses casos. Se não for o momento, eu digo isso também.
Atendo presencialmente em Florianópolis, no Espaço Cora, na Agronômica, e online para todo o Brasil.
Quero conversar com a DudaMaria Eduarda Zytkuewisz Camargo, CRN-10/7247. Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta com um profissional de saúde.