Pular para o conteúdo
Duda CamargoNutricionista · Diabetes

Blog · Diabetes tipo 1

Contagem de carboidratos: como começar, com um prato de arroz e feijão

Por Duda Camargo, nutricionista CRN-10/7247 · Publicado em

Você saiu da consulta com a orientação de "contar carboidrato" e uma tabela na mão. Ou ouviu falar que a contagem dá mais liberdade e quer entender se serve para você. Este texto mostra como a contagem funciona na prática, com um prato que existe na sua casa, e onde as pessoas costumam tropeçar no começo.

A resposta direta

Contagem de carboidratos é estimar quantos gramas de carboidrato tem uma refeição. Para quem usa insulina nas refeições, esse número entra numa conta individual que define a dose. Para quem não usa insulina, a contagem serve para distribuir o carboidrato ao longo do dia e entender por que uma refeição sobe mais a glicose que outra.

Ela não é dieta, não proíbe alimento e não exige comer pouco carboidrato. É um método de leitura do prato.

Por que o carboidrato, e não a caloria

Entre os nutrientes da comida, o carboidrato é o que mais rapidamente vira glicose no sangue. Proteína e gordura também influenciam, mas de forma mais lenta e menor. Por isso a contagem começa pelo carboidrato. A Sociedade Brasileira de Diabetes e a Associação Americana de Diabetes recomendam a contagem como estratégia para quem usa insulina em esquema de múltiplas doses ou bomba, e como ferramenta de educação para os outros tipos de diabetes.

Um prato, na prática

Vamos contar um almoço comum. Os valores são aproximados e vêm da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO).

Carboidrato aproximado de um almoço comum (TACO)
AlimentoQuantidadeCarboidrato aproximado
Arroz branco cozido4 colheres de sopa (≈100 g)≈ 28 g
Feijão carioca cozido1 concha (≈100 g)≈ 14 g
Frango grelhado1 filé≈ 0 g
Salada de folhas e tomate1 prato de sobremesa≈ 2 a 3 g
Total≈ 45 g

Se a sobremesa for uma banana prata média, somam-se perto de 20 g. Se o almoço vier com um copo de suco de laranja de 200 ml, outros 15 a 20 g, conforme o suco.

Repare em duas coisas. Primeiro, não precisa de precisão de laboratório: a conta é uma estimativa, e diferenças de 5 g numa refeição costumam importar menos do que a regularidade de contar. Segundo, a medida caseira muda de casa para casa. A sua colher de sopa e a sua concha não são iguais às da tabela. Por isso, no começo, vale pesar algumas vezes os alimentos que você come sempre, para calibrar o olho. Depois de algumas semanas, a maioria das pessoas estima com boa margem sem balança.

Para quem usa insulina: a razão insulina por carboidrato

Quem usa insulina rápida ou ultrarrápida nas refeições trabalha com uma razão: quantos gramas de carboidrato uma unidade de insulina "cobre". Essa razão é individual, muda ao longo do dia em muitas pessoas e é definida pela equipe que acompanha você, a partir dos seus registros de glicemia.

Para entender a lógica, um exemplo hipotético: se a razão de alguém fosse 1 unidade para cada 15 g, o almoço de 45 g pediria 3 unidades. A dose final também considera a glicemia antes da refeição e, em muitos esquemas, a atividade física prevista. Não use a razão de outra pessoa nem crie a sua sozinha: o ajuste é médico.

Para quem não usa insulina

Contar também serve para quem tem diabetes tipo 2 sem insulina, pré-diabetes ou diabetes gestacional. Nesses casos, a contagem ajuda a:

O que a contagem não conta

A contagem olha o carboidrato, mas a glicose depois da refeição depende de mais coisas.

Os erros mais comuns no começo

  1. Contar só os "carboidratos óbvios" (arroz, pão, massa) e esquecer leite, iogurte, frutas, molhos, feijão e bebidas.
  2. Ler "açúcares" em vez de "carboidratos" no rótulo. Um produto "zero açúcar" pode ter bastante carboidrato vindo de farinha, amido ou leite.
  3. Ignorar a porção do rótulo. A tabela pode ser de 30 g e o pacote ter 120 g.
  4. Usar a contagem para restringir. Contar não é comer menos carboidrato. É saber quanto tem.
  5. Desistir na primeira semana. A estimativa melhora com repetição. Anotar o prato e a glicemia de algumas refeições por alguns dias costuma ensinar mais do que qualquer tabela.

Quem está escrevendo isto

Sou nutricionista, mestre em Nutrição pela UFSC, e atendo exclusivamente pessoas com diabetes. Também vivo com diabetes tipo 1 há mais de 20 anos e conto carboidrato todos os dias. O que está aqui é o que eu ensino no consultório e o que eu faço no meu prato.

O que eu não prometo

A contagem não garante glicemia perfeita, porque a glicose depende de muitos fatores além da comida. Ela dá método e previsibilidade. A dose de insulina é sempre definida com o seu médico.

Perguntas que aparecem toda semana

Preciso pesar a comida para sempre? Não. A balança é útil para calibrar no começo e para conferir de tempos em tempos. Depois disso, a medida caseira resolve a maior parte dos dias.

Existe um número certo de carboidrato por refeição? Não existe um número que sirva para todos. Ele depende do tipo de diabetes, do tratamento, da fase da vida e da rotina, e é definido no plano alimentar individual.

Fibra se desconta do carboidrato? Em alguns protocolos, quando a fibra da refeição é alta, parte dela pode ser descontada. Isso deve ser combinado com a sua equipe, porque muda a dose.

Aplicativo de contagem funciona? Ajuda, desde que a base de dados seja confiável e você confira as porções. Para alimentos brasileiros, a TACO e as tabelas da SBD são referência.

Para começar

Escolha uma refeição do dia, a mesma por uma semana, e conte o carboidrato dela todos os dias. Anote o total e, se você mede, a glicemia antes e duas horas depois. No fim da semana, você vai ter a primeira leitura do seu próprio prato.

Se quiser aprender a contagem com um plano feito para a sua rotina, o atendimento é presencial em Florianópolis, em São José e online para todo o Brasil.

Fontes: Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (edição vigente, capítulo de terapia nutricional); American Diabetes Association, Standards of Care in Diabetes 2026, seção 5; Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO), NEPA/Unicamp.

Maria Eduarda Zytkuewisz Camargo, CRN-10/7247. Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta com um profissional de saúde.

✆